22 março 2009

Música e Imagem




Radiohead na Apoteose - 2 estréias pra mim. Banda e local. Pra tornar a coisa mais perfeita, mais de 2 horas de show, com o repertório completo do último CD, "In Rainbows", mais canções escolhidas a dedo, como "Karma Police", "Idioteque" e "Just". E, pra terminar, "Creep", inacreditavelmente. Acompanhava o passar das horas pelo relógio da Central do Brasil. Quase 1 hora da manhã quando a maratona de 3 shows terminou (Los Hermanos e Kraftwerk, antes).
Não foi surpresa o carisma da banda, sua competência musical, a voz de Thom, a influência sobre a platéia de fãs siderados. O que mais chamou a atenção foi o cuidado e o apuro visual do espetáculo. A ponto de vir à minha cabeça um insight: é sabido que a indústria da música, para sobreviver, teve de apelar ao shows para reverter a perda de renda causada pela queda na venda de CD's (pirataria e download na internet). E, para enfrentar a concorrência entre bandas, os shows investem cada vez mais no esmero visual. A apresentação do Radiohead comprova essa teoria.
Centenas de cilindros transparentes enfileirados esquadrinhavam o palco; por entre eles, passavam feixes de luz, de diferentes cores e texturas. Ao fundo, um telão retangular imenso reproduzia as imagens captadas por várias camêras colocadas estrategicamente em cada canto do palco. Além disso, um conjunto de holofoltes circulares reforçavam a composição das luzes. Ladeando a estrutura do palco, mais 2 grandes telões reproduziam partes das imagens de cada câmera.
Enfim, um verdadeiro espetáculo audiovisual ao vivo. Uma façanha nada trivial em se tratando de indústria do entretenimento. Quando o cinema se vê num beco sem saída em relação à pirataria e à internet, a música levou uma rasteira, se estabacou feio no chão, lavantou a poeira e deu a volta por cima. Hoje ela é capaz de levar multidões a sair de casa, pagando ingressos nada baratos, ao oferecer espetáculos cada vez mais rebuscados musical e visualmente.
Hoje em dia, o espectador utiliza-se da enorme facilidade de tomar contato com as músicas de suas bandas preferidas - vide o que o próprio Radiohead fez com seu último álbum, lançando-o diretamente na rede -, chega ao show com todo o repertório na ponta da língua, e aguarda então ser surpreendido pela performance ao vivo, por um novo arranjo de um antigo sucesso, pela sacação de um cenário bem resolvido, pelo apelo visual. Soma-se a isso as milhares de pessoas ali, no mesmo espaço físico, compartilhando do mesmo sentimento. A indústria da música salva pela combinação de seu atrativo mais primitivo - a apresentação ao vivo -, com os benefícios da tecnologia multimídia, a mesma tecnologia que no início foi responsável pelo seu tombo.
E o audiovisual? Ainda vai continuar a pensar prioritariamente no cinema? Ou vai começar a ver com mais seriedade a TV, o computador, a internet - e a própria parceria com a música - como alternativas não apenas à sua sobrevivência mas também ao seu crescimento?

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