24 março 2009

O Homem Trágico


Laurent Cantet não é um diretor de alta produtividade; pelo contrário. Dele, só assisti a três filmes - "A Agenda" (2001); "Em Direção do Sul", de 2005; e mais recentemente "Entre os Muros da Escola", Palma de Ouro em Cannes no ano passado.
"A Agenda" é um dos meus filmes preferidos; escrevi até um trabalho sobre ele, apresentado em congresso. "Em Direção ao Sul" também é uma obra de grandes qualidades. Com "Entre os Muros..." não é diferente.
E poderia ter sido um estrondoso clichê - professor idealista tenta salvar as almas perdidas de uma classe multiétnica em escola de periferia da capital francesa. Algo do tipo "professor herói", que Hollywood soube explorar à exaustão.
Mas o fato é que "Entre os Muros da Escola" é original, sem ter inventado a roda.
Primeiro, porque é uma espécie de "docudrama", isto é, um filme que mistura elementos de documentário à ficção, apagando a linha que separa os dois. O autor do livro em que o roteiro se baseia, François Bégaudeau, é o ator-professor-personagem, e os alunos são todos não-atores pescados em discotecas e casas noturnas - cada um deles faz, ao mesmo tempo, o papel de si mesmo e de um aluno fictício de uma sala de aula do final do ensino fundamental composta por um caldeirão de etnias. De filhos e netos de oriundos de ex-colônias francesas; de franceses - se é que existe um francês típico nos dias de hoje -; até imigrantes chineses.
Segundo, porque o filme não é maniqueísta; tanto à direita quanto à esquerda, podemos achar argumentos que defendam uma retomada da escola clássica, rigorosa, da mesma forma que argumentos a favor de uma ampla e irrestrita reforma libertária do ensino fundamental no mundo ocidental contemporâneo. E por que isso seria uma qualidade do filme de Cantet? Porque demonstra que a questão é muito mais complexa do que a tomada de posturas fixas.
E é então que passamos ao terceiro elemento, o "pulo do gato" que torna "Entre os Muros..." um filme especial - é a tragédia pessoal do professor Marin, frequentemente sem-saída diante da rebeldia e violência de seus alunos, muitas vezes sem resposta, constrangido, titubeante perante os questionamentos de adolescentes que não vêem sentido naquilo que estão aprendendo, em seu quotidiano e, mais grave ainda, em suas perspectivas de futuro. "Entre os Muros..." tem densidade política porque tem densidade dramática, uma quase tragédia individual, que nos remete imediatamente ao personagem-protagonista de "A Agenda" - um indíviduo sem rumo e identidade, perdido na crise fetichista do mundo do trabalho contemporâneo, o qual representa a perplexidade e impotência de cada um de nós diante dos problemas cada vez mais complexos do mundo de hoje. O mesmo vale para o professor Marin - mais do que defender ou atacar essa ou aquela posição, vale entender - e então se estupefar - com o porquê de uma instiuição chamada "escola", com uma instituição chamada "estado". Porque, acima de tudo, somos indivíduos, e partilhamos do mesmo sentimento de abandono e desamparo...
O cinema de Cantet, paradoxalmente, nos une por intermédio desses sentimentos.

Um comentário:

  1. nunca tinha entrado aqui...
    adorei esse filme, e preciso reler crime e castigo, nessa tradução direta do russo para o português.bj.

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