
Na foto acima, vemos Lygia Fagundes Telles afastando-se da cena, sorridente depois de ter feito a entrega de um dos inúmeros prêmios que o escritor Cristovão Tezza ganhou por "O Filho Eterno", acredito que seu livro mais recente. Coube a ele toda sorte de prêmios da última temporada - Portugal Telecom, São Paulo de Literatura, Jabuti, Bravo!, APCA. Na prática, uma unanimidade.
E não porque a safra recente de ficção nacional esteja mal das pernas; Tezza concorreu com gente de peso, obras não menos rigorosas e de qualidade como a dele. O meu palpite para tantas premiações, depois de ter lido o romance, foi a sua intensidade e força, o que confere à história uma veracidade contundente. Faz o leitor operar no registro "não precisei passar por isso, pessoalmente, para sentir o que ele sentiu".
"O Filho Eterno", apesar do título, fala do pai. De uma relação menos natural e institiva que a maternal (isso só na teoria, por que quem disse que o amor de mãe para filho, em nós humanos, é espontâneo e instintivo? O que em nós, humanos, é puramente instintivo, aliás?).
Fala de uma relação de conquista e resignação, de um avançar, parar, retroceder, de uma contradição eterna. Mais eterna ainda quando se trata de um filho especial, de um garoto com síndrome de Down. Este será literalmente filho para sempre.
O que mais chama a atenção no livro de Tezza - ele próprio o pai-protagonista da história - é a sinceridade do autor; sinceridade que vem num turbilhão sem censura de pensamentos e impressões. Uma forma de desabafo, de desagravo. Até chegar, no mesmo grau de honestidade do princípio, momento em que o pai rejeita o filho defeituoso, à admiração desse ser que não é seu espelho, mas sobretudo alguém cuja sabedoria de viver ele gostaria muito de conhecer, experimentar. Sabedoria inconsciente, mas sabedoria - não há noção de tempo, de finitude, de "outro". Portanto, cada momento é único, e pode ser repetido ad nauseum...
Existe limitação mais libertadora?

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