


Por séculos imaginou-se que uma obra de arte fosse algo imutável, perene, com uma aura única e ímpar. Vieram as vanguardas com o século XX e sabemos muito bem o que isso significou no âmbito do juízo estético: o que passou a contar era o ato de criar em si, dane-se a obra, ainda mais com o advento tecnológico que possibilitou a sua reprodução em série. Adeus, mágica da obra de arte!
E então instaurou-se uma grande insegurança - o que chamar de arte? Pior: o que diferencia e denota uma "obra de arte"? Uma cadeira tirada de sua utilidade habitual e colocada como foco do olhar do espectador? Basta comunicar, qualquer que seja a idéia? O conceito é o que interessa?
Bom, vamos pular todas essas questões - ou, no mínimo, deixá-las em aberto -, para adentrarmos o universo de um artista que as desconsidera por completo. Ou talvez as responda integralmente. Vik Muniz, cuja primeira exposição retrospectiva terminou ontem no MAM carioca.
Há um imenso senso de trabalho e composição na obra de Vik. Há permanência nela, ou seja, há resultado final, obra de arte duradoura, fixa. Mas há também ato criador, fundador, metodologia e conceito abertos ao público. Como numa síntese dialética.
Vik cria suas obras a partir de referências bem embasadas - geralmente a obra de outros artistas ou um conceito, que pode ser político, sociológico ou puramente estético. A partir daí adiciona elementos contemporâneos, relacionados ao quotidiano, sobretudo como material de trabalho - poeira, gelatina, papel, chocolate, caviar, diamantes, lixo e sucata, terra. E então, numa camada seguinte, compõe com esses elementos - esculturas, quadros, instalações. Obras que deixam de existir fisicamente para permanecerem para a posteridade, para a fruição dos olhos do público, como fotografias. Fotografias-escultura, tridimensionais; fotografias-pintura; fotografias-gravura; fotografias-instalação.
Resolvido o dilema obra de arte e ato criativo. Na obra de Muniz, ele não existe, e o espectador participa das duas etapas, o que torna tão poderosa a comunicação de sua arte. Ela pede um olhar ativo, curioso, instigado pelo resultado final da obra e de seu processo de confecção. A ponto de a perspectiva de uma criança se cruzar com a de um adulto maduro. Um diálogo que se estabelece não apenas entre público e artista, mas também entre diferentes tipos de público.
Em épocas de realismo por todos os lados - ou, pior, de representações baratas de realidade -, a obra de Vik Muniz consegue um grande feito: valer-se da realidade, de seus elementos mais prosaicos, para criar uma arte elevada, imaginativa, plena de perspectivas, de olhares e de interpretações.
Não é pouca coisa para o garoto da perifieria paulistana que soube aproveitar-se de uma ironia de sua história pessoal para construir uma carreira de destaque no mundo cada vez mais saturado das artes plásticas.
(De cima pra baixo: retrato de Marlene Dietrich refeito com diamantes; nuvem - ou luva de beisebol? - em spray de avião no céu de NYC; recriação em sucata do Narciso de Caravaggio).

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