04 abril 2009

Crime, castigo, e esforço

Esta é a capa da edição mais recente de "Crime e Castigo", parte do projeto da editora 34 de publicar as obras de Dostoiévski traduzindo-as do original russo. Até então as edições nacionais eram baseadas nas traduções francesas, método que obviamente enfraquecia a obra de qualquer escritor. A traição da traição...
De acordo com Paulo Bezerra, o tradutor russo-português dessa coleção, a consequência mais nefasta da triangulação via França era a inserção, nas edições brasileiras, de um formalismo excessivo, inexistente na língua russa, e muito menos nos escritos de Dostoiévski. Explico melhor: o estilo pomposo e rebuscado do francês esvaziava o jorro violento e sem pausa do modo próprio de escrever do autor russo. Assim, acabavam chegando a nós versões monotônicas e contidas de histórias que são verdadeiras tempestades emocionais, colocadas no papel fielmente a esses conteúdos, ou seja, num formato quase sem fôlego, corrido, de idas e vindas do interior para o exterior dos personagens, de momentos bruscos e repentinos, sem uma preocupação com linearidade ou formalismos.
Acho que por essa razão, por essa, digamos, traição mais fiel do russo para o português, a experiência de ler "Crime e Castigo" na edição da 34 está sendo bastante perturbadora, exigindo um esforço enorme, sobretudo psicológico. Não um esforço de entendimento, mas de resistência mesmo, de ser incapaz de não ficar nauseado com a virulência emocional das culpas e pesos carregadas - e transmitidas - pelo protagonista Raskólnikov.
Estou na metade do livro, e a impressão é a de ter lido mais ou menos 5 tratados sobre a natureza humana. Porém, sem o distanciamento emocional proporcionado pela não-ficção.
Ainda voltarei a escrever sobre o livro, sobre o arquétipo "Raskólnikov", que tantas outras obras inspirou. O que importa agora é destacar a minha experiência quase manicomial nessa empreitada literária, falar da convivência com uma loucura que possui um nível de consciência beirando o insuportável.
Acredito que todos nós tenhamos passado, em algum momento de nossas vidas, por pontos de inflexão resultantes de situações "fundo de poço". Momentos em que não víamos a tal luz no fim do túnel, de desesperança. De que o trem havia chegado enfim à estação final.
Esses momentos equivalem à troca de valores e parâmetros emocionais, à experiência de estar à deriva, não mais numa situação passada e ainda em busca de uma situação presente. E um sofrimento horroros vem à tona quando forçamos a validade no presente de uma estratégia de desejo que não vale mais, que já passou. Tentar fazer, obsessivamente, o quadrado encaixar no círculo.
"Crime e castigo" não é livro que se recomende. Eu não recomendo. Ele tem que acontecer na vida do leitor; do contrário, o esforço da leitura não vinga...

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