28 março 2009

O Pai Eterno


Na foto acima, vemos Lygia Fagundes Telles afastando-se da cena, sorridente depois de ter feito a entrega de um dos inúmeros prêmios que o escritor Cristovão Tezza ganhou por "O Filho Eterno", acredito que seu livro mais recente. Coube a ele toda sorte de prêmios da última temporada - Portugal Telecom, São Paulo de Literatura, Jabuti, Bravo!, APCA. Na prática, uma unanimidade.
E não porque a safra recente de ficção nacional esteja mal das pernas; Tezza concorreu com gente de peso, obras não menos rigorosas e de qualidade como a dele. O meu palpite para tantas premiações, depois de ter lido o romance, foi a sua intensidade e força, o que confere à história uma veracidade contundente. Faz o leitor operar no registro "não precisei passar por isso, pessoalmente, para sentir o que ele sentiu".
"O Filho Eterno", apesar do título, fala do pai. De uma relação menos natural e institiva que a maternal (isso só na teoria, por que quem disse que o amor de mãe para filho, em nós humanos, é espontâneo e instintivo? O que em nós, humanos, é puramente instintivo, aliás?).
Fala de uma relação de conquista e resignação, de um avançar, parar, retroceder, de uma contradição eterna. Mais eterna ainda quando se trata de um filho especial, de um garoto com síndrome de Down. Este será literalmente filho para sempre.
O que mais chama a atenção no livro de Tezza - ele próprio o pai-protagonista da história - é a sinceridade do autor; sinceridade que vem num turbilhão sem censura de pensamentos e impressões. Uma forma de desabafo, de desagravo. Até chegar, no mesmo grau de honestidade do princípio, momento em que o pai rejeita o filho defeituoso, à admiração desse ser que não é seu espelho, mas sobretudo alguém cuja sabedoria de viver ele gostaria muito de conhecer, experimentar. Sabedoria inconsciente, mas sabedoria - não há noção de tempo, de finitude, de "outro". Portanto, cada momento é único, e pode ser repetido ad nauseum...
Existe limitação mais libertadora?

24 março 2009

O Homem Trágico


Laurent Cantet não é um diretor de alta produtividade; pelo contrário. Dele, só assisti a três filmes - "A Agenda" (2001); "Em Direção do Sul", de 2005; e mais recentemente "Entre os Muros da Escola", Palma de Ouro em Cannes no ano passado.
"A Agenda" é um dos meus filmes preferidos; escrevi até um trabalho sobre ele, apresentado em congresso. "Em Direção ao Sul" também é uma obra de grandes qualidades. Com "Entre os Muros..." não é diferente.
E poderia ter sido um estrondoso clichê - professor idealista tenta salvar as almas perdidas de uma classe multiétnica em escola de periferia da capital francesa. Algo do tipo "professor herói", que Hollywood soube explorar à exaustão.
Mas o fato é que "Entre os Muros da Escola" é original, sem ter inventado a roda.
Primeiro, porque é uma espécie de "docudrama", isto é, um filme que mistura elementos de documentário à ficção, apagando a linha que separa os dois. O autor do livro em que o roteiro se baseia, François Bégaudeau, é o ator-professor-personagem, e os alunos são todos não-atores pescados em discotecas e casas noturnas - cada um deles faz, ao mesmo tempo, o papel de si mesmo e de um aluno fictício de uma sala de aula do final do ensino fundamental composta por um caldeirão de etnias. De filhos e netos de oriundos de ex-colônias francesas; de franceses - se é que existe um francês típico nos dias de hoje -; até imigrantes chineses.
Segundo, porque o filme não é maniqueísta; tanto à direita quanto à esquerda, podemos achar argumentos que defendam uma retomada da escola clássica, rigorosa, da mesma forma que argumentos a favor de uma ampla e irrestrita reforma libertária do ensino fundamental no mundo ocidental contemporâneo. E por que isso seria uma qualidade do filme de Cantet? Porque demonstra que a questão é muito mais complexa do que a tomada de posturas fixas.
E é então que passamos ao terceiro elemento, o "pulo do gato" que torna "Entre os Muros..." um filme especial - é a tragédia pessoal do professor Marin, frequentemente sem-saída diante da rebeldia e violência de seus alunos, muitas vezes sem resposta, constrangido, titubeante perante os questionamentos de adolescentes que não vêem sentido naquilo que estão aprendendo, em seu quotidiano e, mais grave ainda, em suas perspectivas de futuro. "Entre os Muros..." tem densidade política porque tem densidade dramática, uma quase tragédia individual, que nos remete imediatamente ao personagem-protagonista de "A Agenda" - um indíviduo sem rumo e identidade, perdido na crise fetichista do mundo do trabalho contemporâneo, o qual representa a perplexidade e impotência de cada um de nós diante dos problemas cada vez mais complexos do mundo de hoje. O mesmo vale para o professor Marin - mais do que defender ou atacar essa ou aquela posição, vale entender - e então se estupefar - com o porquê de uma instiuição chamada "escola", com uma instituição chamada "estado". Porque, acima de tudo, somos indivíduos, e partilhamos do mesmo sentimento de abandono e desamparo...
O cinema de Cantet, paradoxalmente, nos une por intermédio desses sentimentos.

23 março 2009

Reinventando a arte com a realidade







Por séculos imaginou-se que uma obra de arte fosse algo imutável, perene, com uma aura única e ímpar. Vieram as vanguardas com o século XX e sabemos muito bem o que isso significou no âmbito do juízo estético: o que passou a contar era o ato de criar em si, dane-se a obra, ainda mais com o advento tecnológico que possibilitou a sua reprodução em série. Adeus, mágica da obra de arte!
E então instaurou-se uma grande insegurança - o que chamar de arte? Pior: o que diferencia e denota uma "obra de arte"? Uma cadeira tirada de sua utilidade habitual e colocada como foco do olhar do espectador? Basta comunicar, qualquer que seja a idéia? O conceito é o que interessa?
Bom, vamos pular todas essas questões - ou, no mínimo, deixá-las em aberto -, para adentrarmos o universo de um artista que as desconsidera por completo. Ou talvez as responda integralmente. Vik Muniz, cuja primeira exposição retrospectiva terminou ontem no MAM carioca.
Há um imenso senso de trabalho e composição na obra de Vik. Há permanência nela, ou seja, há resultado final, obra de arte duradoura, fixa. Mas há também ato criador, fundador, metodologia e conceito abertos ao público. Como numa síntese dialética.
Vik cria suas obras a partir de referências bem embasadas - geralmente a obra de outros artistas ou um conceito, que pode ser político, sociológico ou puramente estético. A partir daí adiciona elementos contemporâneos, relacionados ao quotidiano, sobretudo como material de trabalho - poeira, gelatina, papel, chocolate, caviar, diamantes, lixo e sucata, terra. E então, numa camada seguinte, compõe com esses elementos - esculturas, quadros, instalações. Obras que deixam de existir fisicamente para permanecerem para a posteridade, para a fruição dos olhos do público, como fotografias. Fotografias-escultura, tridimensionais; fotografias-pintura; fotografias-gravura; fotografias-instalação.
Resolvido o dilema obra de arte e ato criativo. Na obra de Muniz, ele não existe, e o espectador participa das duas etapas, o que torna tão poderosa a comunicação de sua arte. Ela pede um olhar ativo, curioso, instigado pelo resultado final da obra e de seu processo de confecção. A ponto de a perspectiva de uma criança se cruzar com a de um adulto maduro. Um diálogo que se estabelece não apenas entre público e artista, mas também entre diferentes tipos de público.
Em épocas de realismo por todos os lados - ou, pior, de representações baratas de realidade -, a obra de Vik Muniz consegue um grande feito: valer-se da realidade, de seus elementos mais prosaicos, para criar uma arte elevada, imaginativa, plena de perspectivas, de olhares e de interpretações.
Não é pouca coisa para o garoto da perifieria paulistana que soube aproveitar-se de uma ironia de sua história pessoal para construir uma carreira de destaque no mundo cada vez mais saturado das artes plásticas.
(De cima pra baixo: retrato de Marlene Dietrich refeito com diamantes; nuvem - ou luva de beisebol? - em spray de avião no céu de NYC; recriação em sucata do Narciso de Caravaggio).

22 março 2009

Música e Imagem




Radiohead na Apoteose - 2 estréias pra mim. Banda e local. Pra tornar a coisa mais perfeita, mais de 2 horas de show, com o repertório completo do último CD, "In Rainbows", mais canções escolhidas a dedo, como "Karma Police", "Idioteque" e "Just". E, pra terminar, "Creep", inacreditavelmente. Acompanhava o passar das horas pelo relógio da Central do Brasil. Quase 1 hora da manhã quando a maratona de 3 shows terminou (Los Hermanos e Kraftwerk, antes).
Não foi surpresa o carisma da banda, sua competência musical, a voz de Thom, a influência sobre a platéia de fãs siderados. O que mais chamou a atenção foi o cuidado e o apuro visual do espetáculo. A ponto de vir à minha cabeça um insight: é sabido que a indústria da música, para sobreviver, teve de apelar ao shows para reverter a perda de renda causada pela queda na venda de CD's (pirataria e download na internet). E, para enfrentar a concorrência entre bandas, os shows investem cada vez mais no esmero visual. A apresentação do Radiohead comprova essa teoria.
Centenas de cilindros transparentes enfileirados esquadrinhavam o palco; por entre eles, passavam feixes de luz, de diferentes cores e texturas. Ao fundo, um telão retangular imenso reproduzia as imagens captadas por várias camêras colocadas estrategicamente em cada canto do palco. Além disso, um conjunto de holofoltes circulares reforçavam a composição das luzes. Ladeando a estrutura do palco, mais 2 grandes telões reproduziam partes das imagens de cada câmera.
Enfim, um verdadeiro espetáculo audiovisual ao vivo. Uma façanha nada trivial em se tratando de indústria do entretenimento. Quando o cinema se vê num beco sem saída em relação à pirataria e à internet, a música levou uma rasteira, se estabacou feio no chão, lavantou a poeira e deu a volta por cima. Hoje ela é capaz de levar multidões a sair de casa, pagando ingressos nada baratos, ao oferecer espetáculos cada vez mais rebuscados musical e visualmente.
Hoje em dia, o espectador utiliza-se da enorme facilidade de tomar contato com as músicas de suas bandas preferidas - vide o que o próprio Radiohead fez com seu último álbum, lançando-o diretamente na rede -, chega ao show com todo o repertório na ponta da língua, e aguarda então ser surpreendido pela performance ao vivo, por um novo arranjo de um antigo sucesso, pela sacação de um cenário bem resolvido, pelo apelo visual. Soma-se a isso as milhares de pessoas ali, no mesmo espaço físico, compartilhando do mesmo sentimento. A indústria da música salva pela combinação de seu atrativo mais primitivo - a apresentação ao vivo -, com os benefícios da tecnologia multimídia, a mesma tecnologia que no início foi responsável pelo seu tombo.
E o audiovisual? Ainda vai continuar a pensar prioritariamente no cinema? Ou vai começar a ver com mais seriedade a TV, o computador, a internet - e a própria parceria com a música - como alternativas não apenas à sua sobrevivência mas também ao seu crescimento?

21 março 2009

Lugar-comum

Da janela do trabalho avisto um prédio inusual. Nota-se que não se trata de qualquer construção; as referências estão todas lá - os pilotis suspendendo a nave principal; o vão; a simetria das janelas, todas aparentes, mostrando o interior e sua iluminação padronizada; um jardim suspenso, esquadrinhado como uma pintura abstrata; afrescos azulejados em azul e branco nas paredes externas.
Pode-se imaginar que estamos em São Paulo, se o edifício parece assim tão modernista. Estamos no Rio, porém. Um Rio artificial, obra do homem - de vários deles, todos notáveis, Niemeyer, Lúcio Costa, Reidy, Burle Marx, Portinari, consultoria de Le Corbusier. Não o Rio da natureza de deus, lugar-comum.
Minha adaptação por aqui passou por esse olhar fora do comum, um olhar que fugisse do clichê, do chavão "Rio isso, São Paulo aquilo". Por isso a escolha de um dos afrescos de Portinari para o Palácio Gustavo Capanema - nome pomposo desse prédio tão contemporâneo -, como papel de parede da página principal deste blog. Eu o vejo quase que diariamente, pão de açúcar composto pelas mãos de um artista-operário, e de vários outros operários-artistas.
E, assim, esquivando-se de um lugar-comum aqui outro ali, aceitando aqueles que são incontestavelmente incomuns, como o suvaco do cristo que se abre debaixo de minha outra janela - esta, a da minha casa -, construí minha familiaridade com a cidade que carrega janeiro no nome (mês do meu aniversário) e que tem como padroeiro um santo chamado Sebastião, como meu pai.
Meus gatos, no entanto, de modo mais simples, guiados pelo instinto de sobrevivência, adaptaram-se muito mais rapidamente. A ponto de me encararem vez por outra, a me questionar: "Nós algum dia moramos em outro lugar?". Como se o tempo não existisse - e, por consequência, as lembranças, a nostalgia, a melancolia (o que, inegavelmente, facilita as coisas quando se trata de mudança de vida...).
Bom, para aqueles que já sabiam, vale o reforço; e para os que não sabiam, aí vai a notícia. Benvindos ao Rio do Marcão, ao Marcão do Rio, ao Marcão de sempre. À necessidade de escrever e ao prazer de ser lido.