10 abril 2009

Mulherão



















"Inverno poderoso", esta é a chamada principal da Vogue Brasil deste mês. A "cover girl" é Ana Cláudia Michels, com seu rostinho doce tranfigurado, no qual destacam-se os olhos verdes cortados ao meio. Eles estão aí ao lado, na foto, mas sem a inocência usual; Ana Paula é outra - blasée ao mesmo tempo agressiva; poderosa mas um pouco inquieta; bem ao estilo diva germânica. Uma personagem de Fassbinder, um jeitão de Marlene Dietrich ou, atualizando mais as referências, uma Ute Lemper tupiniquim (a performer-cantora alemã da foto acima).
A semelhança aqui gira em torno da atitude das duas diante da câmera: a pose rigorasamente elaborada em gestos enfáticos; a mão na cintura ou atrás, na nuca, a mão como moldura dos olhos. Além disso, há a maquiagem rebuscada e o olhar frio, distante. Uma artificialidade proposital para afirmar uma personalidade feminina que vai muito além do clichê do belo puramente plástico; trata-se de representar uma mulher com postura, firmeza, uma mulher inteligente e culta.
Essa mulher possui uma porção de referências, e por isso se veste de maneira rigorosa. O rigor está na preferência por siluetas arquitetônicas, nas quais utilizam-se recursos de alfaiataria, de alta costura, de elementos que delineiam firmemente as partes-chave do corpo feminino - ombros, colo, cintura, pernas. Os detalhes também são fundamentais, como os acessórios ou as misturas de estampa, textura ou sobreposição. É preciso mostrar que se sabe transitar nesse meio repleto de referências e, mais do que isso, criar um estilo próprio super elaborado. O oposto do look desencanado.
Não à toa os darlings recentes da moda serem caras como Marc Jacobs, Nicolas Ghesquière (Balenciaga), Albert Elbaz (Lanvin) e Ricardo Tiscci (Givenchy). Suas criações são mega elaboradas, detalhadas, cheias de conceitos, de rigor na construção e composição.
Curioso essa imagem de mulher poderosa, de silueta rigorosa e bem marcada, remeter a décadas como as de 40 e 80, durante as quais o mundo também passava por sérias crises econômicas como a atual. 40 era a II Guerra e seu final; 80, o segundo choque do petróleo, crise da dívida dos países sub. E foram épocas de grande efervescência e criatividade na moda.
Além da teoria batida do escapismo - em momentos difíceis, queremos mais é fugir para coisas belas e sensações gostosas -, tenho uma leitura a respeito do papel da mulher nesses momentos de perrengue, nos quais há quase uma imposição às pessoas de posturas mais fortes, firmes.
Não é a mulherzinha que aparece em tempos bicudos; é o mulherão no sentido daquela mulher que junta a suas necessidades básicas de gênero a inteligência, a cultura, a busca de afirmação por visibilidade e poder.
É necessário ajudar o homem, o companheiro, a dividir tarefas. Mais que isso, são necessárias cada vez mais cabeças pensantes para dissecar e elaborar as intrincadas teias de informação e referências que nos cercam, para entender um mundo complexo. E que se complexifica ainda mais em crises estruturais.
Sai a mulher-objeto, entra a mulher-sujeito. Aquela que não distingue feminilidade de inteligência e atitude.
Vai encarar?

04 abril 2009

Crime, castigo, e esforço

Esta é a capa da edição mais recente de "Crime e Castigo", parte do projeto da editora 34 de publicar as obras de Dostoiévski traduzindo-as do original russo. Até então as edições nacionais eram baseadas nas traduções francesas, método que obviamente enfraquecia a obra de qualquer escritor. A traição da traição...
De acordo com Paulo Bezerra, o tradutor russo-português dessa coleção, a consequência mais nefasta da triangulação via França era a inserção, nas edições brasileiras, de um formalismo excessivo, inexistente na língua russa, e muito menos nos escritos de Dostoiévski. Explico melhor: o estilo pomposo e rebuscado do francês esvaziava o jorro violento e sem pausa do modo próprio de escrever do autor russo. Assim, acabavam chegando a nós versões monotônicas e contidas de histórias que são verdadeiras tempestades emocionais, colocadas no papel fielmente a esses conteúdos, ou seja, num formato quase sem fôlego, corrido, de idas e vindas do interior para o exterior dos personagens, de momentos bruscos e repentinos, sem uma preocupação com linearidade ou formalismos.
Acho que por essa razão, por essa, digamos, traição mais fiel do russo para o português, a experiência de ler "Crime e Castigo" na edição da 34 está sendo bastante perturbadora, exigindo um esforço enorme, sobretudo psicológico. Não um esforço de entendimento, mas de resistência mesmo, de ser incapaz de não ficar nauseado com a virulência emocional das culpas e pesos carregadas - e transmitidas - pelo protagonista Raskólnikov.
Estou na metade do livro, e a impressão é a de ter lido mais ou menos 5 tratados sobre a natureza humana. Porém, sem o distanciamento emocional proporcionado pela não-ficção.
Ainda voltarei a escrever sobre o livro, sobre o arquétipo "Raskólnikov", que tantas outras obras inspirou. O que importa agora é destacar a minha experiência quase manicomial nessa empreitada literária, falar da convivência com uma loucura que possui um nível de consciência beirando o insuportável.
Acredito que todos nós tenhamos passado, em algum momento de nossas vidas, por pontos de inflexão resultantes de situações "fundo de poço". Momentos em que não víamos a tal luz no fim do túnel, de desesperança. De que o trem havia chegado enfim à estação final.
Esses momentos equivalem à troca de valores e parâmetros emocionais, à experiência de estar à deriva, não mais numa situação passada e ainda em busca de uma situação presente. E um sofrimento horroros vem à tona quando forçamos a validade no presente de uma estratégia de desejo que não vale mais, que já passou. Tentar fazer, obsessivamente, o quadrado encaixar no círculo.
"Crime e castigo" não é livro que se recomende. Eu não recomendo. Ele tem que acontecer na vida do leitor; do contrário, o esforço da leitura não vinga...